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quarta-feira, 28 de junho de 2017

OPERAÇÃO TIGRE: WALTER RODRIGUES E A MEMÓRIA DO CRIME ORGANIZADO NO MARANHÃO


Imagem meramente ilustrativa

No governo João Alberto (1990), o Maranhão foi palco de uma das maiores operações de extermínio de criminosos. Batizada de Operação Tigre, a carnificina foi narrada pelo saudoso jornalista Walter Rodrigues no Colunão, em 2005, quando morreu o coronel José Ruy Salomão Rocha, chefe da famigerada operação.

O SILÊNCIO FINAL DO "TIGRE" 

Por WALTER RODRIGUES S. Luís (MA), 4/12/2005

Colunão: Walter Rodrigues
Morreu do coração na última quinta-feira (29), em Fortaleza, Ceará, um dos homens mais duros, valentes e controversos da Polícia do Maranhão. Chefe militar e símbolo da mais famosa operação de extermínio de bandidos já realizada no Brasil, a Operação Tigre, ordenada em 1990 pelo ex-governador João Alberto (PFL, hoje no PMDB), o coronel José Ruy Salomão Rocha levou para o túmulo alguns segredos que possivelmente nunca serão revelados.

Um deles: quantas pessoas realmente foram mortas pela PM e pela Polícia Civil na operação? Até que ponto o Governo sabia das chantagens, extorsões e roubos de carros praticados pela equipe do delegado Luiz Moura naquele período? Quantos sabiam que parte da PM usava a operação de “combate ao crime” para cometer homicídios de aluguel e assaltos também?

Quem patrocinou e em que exatos termos o pacto de não-agressão entre João Alberto e o prefeito David Alves Silva – na época o chefe no 1 da pistolagem e do crime organizado no Maranhão –, interrompendo uma escalada que levou o primeiro a ordenar a morte do segundo, num ato de autodefesa preventiva?

A história da Operação Tigre pode ser contada desde os governos João Castelo (1979-82) e sobretudo Luiz Rocha (1983-86), quando a pistolagem grassou como uma praga no interior do Maranhão e até na capital. “O pior foi no governo Luiz Rocha”, conta o repórter policial Tony Duarte, ele próprio vítima de um atentado em 24/5/1996. “Conhecidos pistoleiros frequentavam até o Palácio dos Leões”. Foi a época de maior prestígio e desenvoltura do deputado José Gerardo, dos quadrilheiros Humberto Gomes de Oliveira (Bel), e Joaquim Laurixto (filho de ex-guarda-costas do senador Sarney), e de muitos outros sanguinários personagens do submundo político e empresarial maranhense.

Uma das razões da proliferação da pistolagem no governo Rocha foi que o então secretário de Segurança, coronel João Ribeiro Silva Júnior, inimigo feroz dos posseiros e dos sem-terra, favorecia a expansão da violência no campo, e conseqüentemente o mercado dos sicários. Tantas fez o coronel que acabou excomungando não somente a si como ao secretário estadual da Fazenda, Nelson Frota – dito “secretário das fazendas” pelos adversários – e ao próprio governador. A declaração à comunidade católica saiu assinada pelos onze bispos da Província Eclesiástica do Maranhão, sob a liderança do arcebispo metropolitano dom João José da Motta e Albuquerque.

Combater a pistolagem e tirar a polícia dos conflitos fundiários foi uma das promessas de campanha do sucessor de Rocha, Epitácio Cafeteira (PMDB), empossado em 1987. “Tirar a polícia” significava simplesmente impedi-la de continuar exercendo o papel de força auxiliar e oficial do latifúndio e da grilagem. Combater a pistolagem implicava antes de tudo em desafiar seus chefes mais conhecidos, acima de todos o prefeito de Imperatriz, Davi Alves Silva.

Cafeteira cumpriu a primeira parte. Os trabalhadores rurais continuaram em desvantagem, mas, sem a Polícia para intimidá-los, ao menos puderam reagir em algumas partes do Estado. Matou-se, então, de ambos os lados. No Vale do Buriticupu, zona de graves litígios, a valentia e a inteligência do grupo de Luiz Vila Nova, adiante deputado estadual pelo PT, pôde enfim iniciar, na marra e na manha, uma pequena reforma agrária.

Mas o combate à pistolagem avançou muito pouco. Eleito prefeito de Imperatriz em 1988, principal cidade do interior, Davi aumentou seu poder de fogo e sua popularidade. Dava-se até ao luxo de ser oposição ao sarneísmo dominante, em aliança com a dissidência ex-sarneísta liderada pelo ex-governador João Castelo. Ninguém ousava mexer com ele.

Em abril de 1990, porém, Cafeteira passou o governo ao vice João Alberto e meses depois celebrava acordo eleitoral com Castelo contra o grupo de Sarney. Dali a seis meses Castelo disputaria o Governo com o candidato sarneísta Edison Lobão (PFL).

Estava com tudo. Collor era o presidente recém-eleito, após agressiva campanha em que prometera enfiar Sarney “na cadeia”. Em São Luís, Castelo juntava sua popularidade à de Cafeteira, campeão de votos na capital. Davi garantia a praça de Imperatriz. Visto daquele abril, parecia impossível detê-lo, fosse quem fosse o candidato sarneísta.

Carcará em ação –– Foi aí que João Alberto entrou em cena, com seu voluntarismo implacável e ilimitado. Sua ação conduziu-se em três vertentes. Na capital, diminuiu no que pôde a imensa vantagem de Castelo, realizando pequenas e médias obras que Cafeteira se esquecera de fazer. No plano político, aproximou-se da igreja progressista e da esquerda, mandou caçar pistoleiros à bala nas zonas de conflito fundiário (salvo onde eram protegidos de seus correligionários), deu dinheiro a sindicatos, e negociou secretamente com o prefeito da capital, Jackson Lago, e com o PSB de Conceição Andrade. Com isso facilitou a transferência em massa do eleitorado de esquerda para Lobão no segundo turno.

Isso era muito mas não bastaria. Lobão e João Alberto só venceram a eleição porque o governador estabeleceu uma espécie de estado de sítio informal na região de Imperatriz – com extensões ao Vale do Mearim e outras partes do Estado –, autorizando a PM a liquidar quantos pistoleiros e assaltantes conseguisse identificar. A operação especial foi confiada a José Ruy Salomão Rocha, apelidado Tigre na corporação. O comando civil ficou com o delegado Luiz Moura, conhecido torturador e meliante, que cumpriu pena de prisão por um de seus inúmeros crimes.

Os dois e mais o atual coronel Nogueira do Lago, então comandante do batalhão de Imperatriz, mataram tanto bandido que até hoje muita gente os admira na região. Decano dos comentaristas políticos do município, o jornalista Jurivê Macedo registrou a morte do Tigre no Estado do Maranhão escrevendo que nenhuma das vítimas da polícia era inocente.

Há prova arrasadora em sentido contrário, inclusive um inquérito policial-militar. Nele fica provado que um grupo de policiais mercenários sequestrou e assassinou os irmãos Noleto, que não tinham nenhum antecedente criminal. Num determinado instante, até a Associação Comercial de Imperatriz, naturalmente propensa a aplaudir “medidas enérgicas” de segurança, protestou contra as arbitrariedades da operação.

Que mais não foram porque Salomão e Luiz Moura entraram em conflito com o comandante do 50 o Batalhão de Infantaria da Selva (50 BIS), coronel Guilherme Ventura, mais tarde comandante da PM e secretário de Segurança, hoje secretário regional de Imperatriz. Direitista assumido e sem grande apreço pelas formalidades legais, Ventura também detestava o bando de Davi, mas logo compreendeu que Luiz Moura não era melhor que o prefeito. Quando secretário, fez com que fosse preso na primeira oportunidade.

Quantos morreram na Operação Tigre? Mais de 100, dizia-se. “Mais de 200”, corrigiu tranquilamente o ex-governador, numa conversa informal pouco antes de deixar o cargo. João Alberto nunca negou a matança. Na época apetecia-lhe a alcunha de Carcará, a ave de rapina com “mais coragem do que homem”, que “pega, mata e come”, segundo a canção imortal do poeta João do Valle.

Um dos que a Polícia pegou e comeu na Operação Tigre foi o graduado pistoleiro Zezé, amigo e auxiliar direto de Davi. Primeiro os PMs capturaram-lhe o filho e o forçaram sob tortura a conduzi-los ao esconderijo de Zezé numa fazenda distante. Lá prenderam Zezé e fuzilaram pai e filho.

Na beira da cova –– Davi ficou tão chocado que decretou luto oficial. Ao mesmo tempo começou a preparar os funerais do governador, anunciando aos comparsas que ele seria liquidado assim que deixasse o mandato. “Está resolvido”, disse ao jornalista o então deputado Raimundo Cabeludo, que tinha amizades e informantes entre os davinistas.

Antes que o governo acabasse, porém, João Alberto chamou o coronel Rocha a seu gabinete e ordenou-lhe que se antecipasse. Rocha tinha fama de pesporrente, mas dessa vez desconfiou que podia entrar numa fria. Foi correndo procurar o presidente da Assembléia, Ricardo Murad, justamente quem o havia indicado ao governador como homem ideal para emparedar o crime organizado em Imperatriz.

O coronel disse a Murad que só cumpriria a tarefa se tivesse a cobertura “dos dois poderes” – àquela altura, o Judiciário inerte não lhe interessava. “João Alberto está louco”, atalhou o deputado. “Nem pense nisso”. Seguiu-se um acordo, com a provável interveniência do ex-presidente Sarney, a confirmar. Ninguém mataria ninguém.

Lobão ganhou a eleição no segundo turno de 90, com apoio da esquerda. João Alberto candidatou-se a prefeito de São Luís em 1992, perdeu para Conceição Andrade, adiante elegeu-se senador em 1994 e 98.

Davi visitou Murad para agradecer-lhe as ponderações. Morreu em 1998, deputado federal candidato à reeleição, abatido a tiros por um de seus capangas. Sua frase mais famosa (dita certa vez a um ministro da Justiça) fora: “Não acredito em homem que não mata”. Em 94 ajudara a eleger Roseana. Quando morreu em 98 ajudava Cafeteira contra Roseana (que o desprezara depois da eleição de 94), sabendo que não tinha jeito.

Há poucos meses o editor do Colunão encontrou o coronel José Ruy Salomão Rocha num supermercado. Pediu-lhe um depoimento “histórico” sobre a Operação Tigre, argumentando até que a vida não lhes daria muito tempo. O coronel nem pensou para responder. “Eu não sou criança. Se eu lhe contar o que sei, você acaba comigo”.

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