
O governador Carlos Brandão (MDB) passou a enfrentar mais uma frente de desgaste às vésperas das eleições em que trabalha pela vitória do sobrinho, Orleans Brandão (MDB), na disputa pelo Governo do Maranhão. Reportagem publicada pelo Estadão neste sábado, 22, aponta que a lobista Roberta Luchsinger e Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, mantinham interlocução sobre negócios e agendas relacionados à administração estadual.
Segundo o jornal, mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular de Roberta indicam que Lulinha teria marcado uma reunião de Brandão no Palácio do Planalto. Em áudio enviado ao filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em 22 de maio de 2024, a lobista afirmou que o encontro estava relacionado à liberação de uma obra no Maranhão.
“Ó, só pro cê saber. Brandão hoje vai lá no palácio, que seu pai falou que vai prosseguir com aquela liberação da obra dele. Aí o Marcola vai receber ele 16 horas. Eu já avisei o Brandão que você conseguiu a agenda, então se quiser falar com o governador, tá confirmado às 16h, fazer uma moral, tá?”, disse Roberta, conforme transcrição da PF divulgada pelo Estadão.
Na sequência, a lobista afirmou que se encontraria com Brandão para tratar de “outros assuntos”. De acordo com a investigação, Lulinha sugeriu que eles se concentrassem nesses demais temas durante as tratativas com o governador.
A reunião citada por Roberta efetivamente ocorreu. A agenda oficial de Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, então chefe de gabinete de Lula, registra um encontro com Brandão às 17h40 daquele dia, acompanhado por outros dois assessores presidenciais. O compromisso foi descrito apenas como “Reunião Executiva”.
Um mês depois, em 21 de junho de 2024, Lula esteve em São Luís e anunciou R$ 59 bilhões em obras do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) para o Maranhão. O pacote incluía a renovação da concessão do Porto do Itaqui, a construção de um novo berço no terminal e a implantação de um corredor de transporte na Avenida Litorânea.
A apuração também identificou que Roberta intermediou a contratação da 3Structure, empresa de informática do empresário Cléber Ribas, por órgãos vinculados ao Governo do Maranhão. Em 2024, a companhia firmou contratos que somaram R$ 5,8 milhões com a Empresa Maranhense de Administração Portuária (Emap) e a Secretaria de Estado da Fazenda.
De acordo com a PF, Ribas contratou Roberta para defender seus interesses e pagou pelo menos R$ 2,5 milhões à lobista entre março de 2024 e dezembro de 2025. A defesa do empresário afirmou que a contratação envolveu serviços de assessoria para captação de clientes e identificação de oportunidades no setor de tecnologia, atividade considerada lícita e comum no mercado.
Em outras mensagens analisadas pelos investigadores, Roberta afirmou que “o presidente do Porto” havia elogiado o empresário e dito “vamos tocar”. Ela também relatou que “Gilberto” teria entrado em contato e que “o gov autorizou tb”. Segundo a PF, a referência seria a Gilberto Lins Neto, então presidente da Emap, afastado da função pelo Supremo Tribunal Federal em outubro de 2024.
A reportagem revelou ainda que Roberta recebeu R$ 4,4 milhões da HSLZ Ltda., empresa contratada pelo Governo do Maranhão para administrar o Hospital dos Servidores Públicos do Estado. A movimentação foi identificada em relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
Questionado, o Governo do Maranhão declarou que “não possui ingerência sobre quaisquer empresas privadas”. O HSLZ informou que não divulga nem comenta informações comerciais individualizadas referentes a contratos privados com fornecedores e prestadores de serviços.
O Estadão também destacou as relações de Roberta e Lulinha com integrantes da política maranhense. Ambos mantinham proximidade com o deputado federal Fábio Macedo (Podemos) e com a mulher dele, Lorena Macedo, que atuava como subsecretária de Representação Institucional do Maranhão em Brasília.
Carlos Brandão negou qualquer relação com Roberta Luchsinger e afirmou que sua agenda institucional “não depende da articulação de terceiros”. O governador acrescentou que Lula “é um grande aliado do Maranhão, onde grandes obras estão sendo executadas a partir da parceria com o Governo Federal, em diversas áreas”.
A defesa de Lulinha criticou o que classificou como vazamentos seletivos destinados a interferir no processo eleitoral. O Palácio do Planalto, procurado pelo Estadão, não se manifestou.
É mais uma frente de batalha para Brandão a pouco mais de um mês para o primeiro turno do pleito. Aliados vêem uma orquestração com foco na derrota do seu grupo, seja qual for o vencedor da disputa.
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